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AND THERE'S NO DRIVER AT THE WHEEL


  Num jornal espanhol de hoje, uma reportagem deu voz a um dos fãs do Bruce Springsteen antes do concerto de ontem em Gijón: "o Bruce faz-nos felizes". Tão simples e tão certeiro.
  
  Comecei a escrever isto enquanto estou à espera do avião no aeroporto de Madrid que, devido à greve geral em Portugal, está atrasado... Estou para lá de cansada física e mentalmente depois de 3 dias de voos com ligações, viagens de autocarro e de comboio,  do próprio concerto e da última noite que praticamente nem deu para dormir. Mas mais que isso, cansada mentalmente depois de cerca de 5 meses de puro Inferno.

  Neste post dá para ter uma ideia da forma como o Bruce entrou na minha vida e algum do impacto que tem tido. Um ano e pouco depois do concerto de Lisboa, o meu amor e admiração pela música dele e por ele continuam, de forma mais intensa até. Será impossível exprimir em palavras o impacto que tem tido na minha vida. Vida essa que mudou radicalmente em menos de meio ano...  Leio o post dessa altura e não posso ignorar a parte em que falo na sorte incrível que tenho tido apesar de alguns contratempos que julgo serem comuns a toda a gente. Mas de um dia para o outro essa "sorte" parece ter terminado, de certa forma. 
  Há alguns meses que tenho vontade de me exprimir da melhor forma que sei, sobre muito do que se tem passado mas não sei até que ponto o quero fazer, qual o interesse ou propósito e mais que isso como fazê-lo... Mas depois de tudo o que vivi ontem no concerto, sinto que tenho de deixar isto nalgum lado, preciso disso. 

  A verdade é que um dos meus maiores medos tornou-se realidade na forma de uma das doenças mais filhas da puta que podem existir e pior que ter acontecido a mim (porque seria o de menos: se não tivesse força para lutar não lutava e pronto), aconteceu à pessoa que me é mais próxima: a minha mãe. Ou seja, a ironia aqui está em dessa forma eu ser mesmo obrigada a aguentar e calar, não por mim mas por ela. Não há qualquer tipo de escapatória, qualquer tipo de escolha consciente em simplesmente não lutar e baixar os braços. Quando é alguém que amamos, o que sentimos não tem nenhum tipo de relevância, não interessa. Não há escolha entre ter e não ter força porque temos de a ter de qualquer forma, pela outra pessoa. É precisamente o que fazemos por ela que conta. 
Para mim, uma das melhores definições de Amor que já ouvi, surgiu num filme daqueles sem grande interesse por aí além mas que subitamente exprime em poucas palavras o que sempre senti:  Stop talking about love. Every asshole in the world says he loves somebody. It means nothing. It still doesn't mean anything. What you feel only matters to you. It's what you do to the people you say you love, that's what matters. It's the only thing that counts.

O que interessa que no dia em que soube da doença a minha vontade de cá estar tenha diminuido exponencialmente? O que interessa para o caso que o medo e a ansiedade subitamente tomaram conta de mim? Nada porque havia agora alguém que precisava desesperadamente que eu superasse isso o mais rapidamente possível porque tudo isto que se passou e se está a passar não tem nada a ver comigo, não pode girar à minha volta mas sim à volta dela. 

  Sempre que alguém me contava ou eu ouvia histórias de pessoas a quem foi diagnosticado algum cancro, a minha reacção era de puro terror. "É quase uma sentença de morte!" Mesmo que se saiba que actualmente há vários avanços nos tratamentos, que é perfeitamente possível ter esta doença e sobreviver, desafio qualquer pessoa a dizer-me que reagiu com calma e lucidez quando foi diagnosticado ou quando algum membro da família ou amigo foi diagnosticado com cancro. É que não se trata somente de se procurar desesperadamente a cura através dos tratamentos disponíveis, trata-se também de minimizar os efeitos desses mesmos tratamentos. Quimioterapia? Radioterapia?... São males necessários que por vezes têm consequências que uma pessoa nem sequer imaginava possível nos piores pesadelos e eu sei disso porque as vi e vejo. Porque passei os dois piores meses da minha vida a ter de lidar com isso, entre idas aos hospitais de Leiria e Coimbra por vezes sem saber o que esperar e como reagir... Sobre isso não me quero alongar muito porque sinceramente ainda é algo que não consegui "arrumar" e ultrapassar dentro mim. Há coisas que pessoa nenhuma deveria ter de passar. Pessoas como a minha mãe e pessoas com outras doenças como as que vi e tenho visto. Vi coisas com as quais fui aprendendo a lidar da melhor forma que pude mas que ainda não sei articular (e possivelmente nunca vou conseguir porque é demasiado). 
  Como é que se vive diariamente com a ideia da possibilidade da morte? Porque é algo que todos temos noção que vai acontecer a quem gostamos, inevitavelmente, nalguma altura das nossas vidas mas há que manter uma certa distância saudável disso senão torna-se impossível "funcionar"...  Li recentemente, já não sei onde, que a ideia de viver cada dia como se fosse o último, torna-se verdadeiramente insuportável a partir de certo ponto porque de que forma conseguimos viver cada dia com a percepção que pode ser o último? Ou pior, que pode ser o último de alguém que amamos mais que qualquer outra coisa ou pessoa?... Pois, não faço a mínima ideia... A minha compulsão no que toca a reflexões sobre tudo e mais alguma coisa, seja o que for, só me prejudica porque me presto a este tipo de torturas mentais.
   
  De certa forma nunca tive tanta infelicidade e felicidade ao mesmo tempo. É complicado explicar isso e não faz grande sentido mas se ao mesmo tempo nunca estive num buraco tão fundo, por outro lado nunca dei tanto valor a coisas tão pequenas e aparentemente insignificantes como dou hoje. Um dia em que a minha mãe esteja bem disposta e animada vale tudo para mim. Um dia em que ela se sinta bem e faça aquelas piadas tão dela que animam toda a gente, são dias em que não preciso de mais nada. Um dia em que encontro motivos para rir e fazer rir os outros, para ser eu mesma sem estar a fazer-me de forte, é um dia que merece ser vivido sem pensar no que pode acontecer ou não depois precisamente porque sei o quanto dói todos aqueles dias em que isso não existiu e tudo o que eu mais queria era a felicidade da minha mãe e a vida em troca só lhe dava sofrimento. 

  Há momentos em que dá para sentir na pele todo o caos e falta de explicação para o que nos acontece e nessas alturas viver é a coisa mais complicada que há. E não me refiro ao desejo de morrer mas a simples vontade de deixar de existir, de desaparecer porque ninguém me ensinou ou me disse como levar um dia depois do outro quando o contexto é este... Não faço a mínima ideia o que é suposto dizer, o que é suposto fazer. Às vezes nem sequer sei o que é suposto sentir. Se consegui encontrar algum tipo de "normalidade" para continuar a fazer a minha vida foi porque me fui agarrando a várias coisas. Porque há amigos que me mantêm cá, porque voltei a descobrir coisas das quais sempre gostei mas que no meio disto tudo deixaram de fazer sentido. A música é uma delas. 

  Quem me conhece minimamente bem sabe a importância que a música tem para mim, não havia um único dia que eu não ouvisse música e que isso não me trouxesse todo um mundo de vivências. Estive alguns meses sem conseguir ouvir absolutamente nada. A música era mais uma daquelas coisas que tinha deixado de me pertencer, que as outras pessoas tinham para elas e lhes dava um enorme prazer e para mim tinha simplesmente deixado de fazer sentido e isso era doloroso também de formas que não dá para explicar... Por um lado não conseguia ouvir de todo e por outro não queria que música nenhuma ficasse associada a este período da minha vida. Não queria ouvir algo daqui a uns anos e voltar ao estado de espírito mais que miserável em que andava anos antes... 

  Não me esqueci que a minha intenção era estar a escrever sobre o concerto que vi ontem do Bruce Springsteen em Gijón, está tudo relacionado.
 Quando alguém como o Bruce me faz sentir, do mais fundo das minhas entranhas, que vale a pena estar viva, que há momentos na vida da mais pura felicidade como a que eu sinto por causa da música dele e como ela me faz sentir e que ao mesmo tempo há momentos de tristeza mas que não estou sozinha neles, acho que um pouco do propósito dele enquanto artista está cumprido. 

When your best hopes and desires, are scattered to the wind
And hard times come and hard times go 
And hard times come and hard times go...


  Percebo que vale a pena lutar para ter dias bons e que vale a pena ter a expectativa que eles vão acontecer. Lutar para encontrar algum tipo de força, que me falha tantas vezes, no meio de tudo o que se está a passar... 
  É óbvio que sei que ele está a cantar para qualquer pessoa que o queira ouvir mas sinto que era para mim que ele estava a cantar esta música ontem em particular: 





  Não há explicação racional para esta minha ligação tão forte com ele e com a música dele. É algo que aconteceu imediatamente na primeira vez que o vi ao vivo e que me marcou irremediavelmente e me tem dado espaço para estar viva, espaço para querer estar viva e ter momentos de felicidade como a que tive ontem. 
  É como diz uma das minhas personagens preferidas dos filmes do Woody Allen:  whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works. 
E depois este amor pela música dele traduz-se também em pequenas coisas que já me tinha apercebido mas ainda não tinha vivido: pessoas que não conhecia de lado nenhum e falam comigo antes e depois do concerto, que fazem questão em dizer-me adeus, pessoas na rua a quem perguntei direcções para o Estádio e me perguntam com um sorriso na cara: "vais ver o Bruce?" como se ele fosse algum amigo nosso. Pessoas que a meio do concerto sorriem para mim a cantar ou até uma rapariga que me viu atrapalhada com o capuz do casaco que estava enrolado e me ajudou prontamente enquanto continuava toda feliz a cantar... Sei que são pequenas coisas e não têm nenhum significado em especial (e se passam certamente em concertos de outros artistas) mas ao mesmo tempo até têm. Há algo que nos une a todos e materializa-se desta forma curiosa. 
  Espero que o Bruce continue a dar-nos música por muitos e muitos anos e espero ter oportunidade de o ver mais vezes ao vivo. É das experiências mais transformadoras e únicas que podem existir.  

(é provável que amanhã ou depois volte a ler isto e muitas frases nem façam grande sentido tal o cansaço e falta de lucidez mas se deixasse para escrever depois, acho que não escrevia de todo...)
   
  

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Rita

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