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AND THERE'S NO DRIVER AT THE WHEEL


11
Out14

 

Books were only one type of receptacle where we stored a lot of things we were afraid we might forget. There is nothing magical in them at all. The magic is only in what books say, how they stitched the patches of the Universe together into one garment for us.

 

- Ray Bradbury "Fahrenheit 451"

 

 

 

Os grandes escritores têm a capacidade de transportar as várias nuances da vida para os livros e com isso dar voz ao que muitos de nós sentimos. O "Fahrenheit 451" passa-se num futuro em que os livros são ilegais e têm de ser queimados a bem da ordem e felicidade da sociedade.  Como uma personagem diz: 

Do you know why books such as this are so important? Because they have quality. And what does the word quality mean? To me it means texture. This book has pores. It has features. This book can go under the microscope. You’d find life under the glass, streaming past in infinite profusion. The more pores, the more truthfully recorded details of life per square inch you can get on a sheet of paper, the more ‘literary’ you are. That’s my definition anyway. Telling detail. Fresh detail. The good writers touch life often. The mediocre ones run a quick hand over her. The bad ones rape her and leave her for the flies. So now you see why books are hated and feared? They show the pores in the face of life.

 

 

 

Um outro livro, o "Brave New World", é um dos meus livros preferidos e na altura em que o li mexeu desde logo comigo e reconheci que estava na presença de algo importante; mas, para além disso, havia algo nele que na altura ainda não conseguia descortinar o que era, algo que descobria em mim aspectos que me deixavam desconfortável e que só agora, dois anos depois e após um  trabalho interior intenso, é que consigo olhar para trás e perceber a razão para me ter marcado da forma que o fez. Isso tornou-se ainda mais significativo há umas semanas quando acabei de ler o "Fahrenheit 451". Os dois livros exploram, de formas diferentes mas igualmente eficientes e contundentes, o provérbio ignorance is bliss

 

 

With school turning out more runners, jumpers, racers, tinkerers, grabbers, snatchers, fliers, and swimmers instead of examiners, critics, knowers, and imaginative creators, the word 'intellectual,' of course, became the swear word it deserved to be. You always dread the unfamiliar. Surely you remember the boy in your own school class who was exceptionally ‘bright,’ did most of the reciting and answering while the others sat like so many leaden idols, hating him. And wasn’t it this bright boy you selected and tortured after hours? Of course it was. We must all be alike. Not everyone born free and equal, as the Constitution says, but everyone made equal. Each man the image of every other; then all are happy, for there are no mountains to make them cower, to judge themselves again. So! A book is a loaded gun in the house next door. Burn it. Take the shot from the weapon. Breach man's mind. Who knows who might be the target of the well-read man?

 

- Ray Bradbury "Fahrenheit 451"

 

 

Os dois obrigam-me a olhar para dentro e enfrentar quem sou, com tudo o que de positivo e doloroso isso traz. 

É uma escolha entre estar viva e sentir tudo, entre saber o abismo enorme que é viver de coração aberto, aceitando o bom e o mau ou escolher "fechar o livro" e não sofrer, não ter dissabores, não ter desgostos... Não ter nada, no fundo. Que maior coragem pode existir que saber que podemos falhar redondamente e mesmo assim arriscar, dia após dia, após dia? 

Não é propriamente fácil, para mim pelo menos, escolher honrar sempre a minha condição de ser humano e aceitar o sofrimento, a ansiedade, o vazio, a escuridão que traz muitas vezes. Quantas vezes não tentei viciar o jogo e procurei formas de sentir o bom e anestesiar o mau? Quantas vezes não me iludi pensando que conseguia fazer batota e não ser descoberta?... Demasiadas vezes. Cada vez que o fazia, sabia perfeitamente que tinha cavado o buraco um pouco mais fundo. A realidade é que esconder o mau ou ignorá-lo só faz com que se entranhe mais profundamente.

Chega uma altura em que o preço a pagar pela invulnerabilidade é muito alto, em que o que tenho de sacrificar é a minha verdade e é precisamente ela que me torna quem sou, que me dá forma. É ela que dá vida a tudo o que tento criar, quando escrevo; que dá significado às relações que tenho com outras pessoas.

Consigo perceber que é um privilégio, o sofrimento que esta verdade me obriga a sentir por vezes. 

 

 

The books are to remind us what asses and fool we are. They're Caeser's praetorian guard, whispering as the parade roars down the avenue, "Remember, Caeser, thou art mortal." Most of us can't rush around, talking to everyone, know all the cities of the world, we haven't time, money or that many friends. The things you're looking for, Montag, are in the world, but the only way the average chap will ever see ninety-nine per cent of them is in a book. Don't ask for guarantees. And don't look to be saved in any one thing, person, machine, or library. Do your own bit of saving, and if you drown, at least die knowing you were headed for shore.

 

― Ray Bradbury "Fahrenheit 451"

 

 

 

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4 comentários

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De Nuno a 15.10.2014 às 23:05

Estou há dias para comentar este teu texto e ainda não tenho a certeza do que escrever relativamente ao teu parágrafo de introspecção. Não quero ser desmancha prazeres, mas não te iludas, a expressão "abrir o peito às balas" existe, porque há balas a voar e elas podem-te mesmo acertar no peito. Sendo tu uma rapariga, isso pode dar-te vantagem ao nível insuflável, mas acredita, é como tu temes, as balas doem mesmo. Watch out.

O problema é que a invulnerabilidade também não é uma solução muito melhor. O que é que cá andamos a fazer, afinal? Somos apenas um cubo de gelo que vai derretendo lentamente até passar a água sobre o chão? Que piada tem isso?

Acho que isto funciona de maneira diferente de pessoa, para pessoa. Para algumas (pelo menos aparentemente), a táctica da invulnerabilidade serve. Talvez por se deixarem consumir pelo medo do "abismo enorme que é viver de coração aberto" (wow, grande frase, nailed it).

Também não preciso dizer como é que este texto assenta que nem uma luva nas minhas reflexões pessoais e a que grupo pertenço. Pelo menos não devo nada à invulnerabilidade, esse preço não tenho que pagar.

Quanto a ti, já é tempo de pagares o que deves ;)
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De Rita a 16.10.2014 às 20:59

Não tenho ilusões porque sei bem que viver de peito aberto é isso mesmo: aceitar as consequências boas e más. Aceitar que é um jogo e tanto pode correr bem como mal... Mas antes isso que nem sequer jogar. É essa a luta... ("a nível insuflável" LOL :P)

Os maiores desgostos da minha vida vieram (e continuam a vir) das alturas em que me deixei ser vulnerável mas as maiores felicidades também, vem tudo do mesmo sítio. E às vezes estar feliz é das coisas mais difíceis, até... Quando nos acontecem coisas MESMO boas, quantas vezes não ficamos desconfiados? "Hum... está para acontecer alguma desgraça ou então vai acontecer alguma coisa que me vai tirar isto. É melhor não me deixar sentir demasiado feliz." It's tricky...
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De Gajo que aprecia Dark Metal Prog a 23.10.2014 às 23:30

Oi? Blog novo com cenas antigas? Não entendo... será...

http://38.media.tumblr.com/c61f02b81b8ef4e0e49f2ef890c4e3ce/tumblr_n7d9pa9pIQ1s9ab4to1_250.gif

?

Big Brother is watching you.
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De Rita a 24.10.2014 às 21:16

Lol, essa t-shirt do gif diz tudo o que preciso para saber quem és :P

Chama-se importar (o blog antigo). Algo bem familiar neste país...

Sim, eu sei. Stalker do caraças -_-

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