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AND THERE'S NO DRIVER AT THE WHEEL

Há umas semanas vi o documentário O.J.: Made In America. É uma mini-série dividida em cinco partes, com cerca de hora e meia cada uma. Pode parecer excessivo, mas depois de visionado percebe-se que é a duração necessária para a história que pretende documentar.

 

 

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Já sabia da existência deste documentário há algum tempo, mas não estava na minha lista de prioridades. O julgamento do O.J. Simpson é um tema tão batido e debatido que pensei que seria mais do mesmo.

Para quem desconhece o caso, o O.J. Simpson é um antigo jogador de futebol americano (e que se virou depois para a representação) que foi acusado da morte da esposa e de um amigo dela, nos anos 90. Esse julgamento ficou conhecido nos Estados Unidos como "o julgamento do século" e terminou com um veredicto de inocência.

 

O que acabou por me convencer a vê-lo foi um episódio do "The Late Show With Stephen Colbert" em que o realizador do documentário, Ezra Edelman, participou como convidado. Pelo trailer que passaram percebi que não se tratava de mais um dos muitos exercícios de "é culpado? é inocente?" ou uma tentativa de esmiuçar os detalhes do julgamento; tinha o propósito de ir bem mais fundo.

 

O que o documentário faz de forma muito inteligente é contextualizar, antes de mais. Começa a narrativa nos anos 60 e mostra-nos, sem se apressar e pacientemente, o que significava - e significa - ser negro nos E.U.A., principalmente em Los Angeles (onde os dois crimes aconteceram e onde vivia o O.J. e a família).   

 

Foi precisamente a partir dos anos 60 que uma parte bastante significativa da comunidade negra, que vivia no sul, partiu em direcção a norte, em busca de uma vida melhor e com a esperança de um tratamento mais digno e humano. Infelizmente viriam a aperceber-se que Los Angeles não era um oásis; os abusos que viriam a sofrer por parte das forças policiais e toda a brutalidade a que seriam sujeitos iria demonstrar isso mesmo.

Paralelamente o filme vai também mostrando esta pessoa/personagem chamado O.J. Simpson, e como ele era exímio na arte de encantar e seduzir toda a gente; como a sua história apaixonava a nação e transcendia a questão da cor da sua pele; em que medida isso o tornou imune perante uns (brancos) e outros (negros) em alturas decisivas da sua vida.  

Algo que também é explorado é o lado reality show de todo o caso, e a forma como o público e a comunicação social "devoraram" e viveram tão intensamente esta história e como ainda hoje está tão presente. 

 

Tudo isto dá-nos o quadro que permite que depois vejamos o julgamento de uma perspectiva bem mais abrangente e completa. Faz-nos reflectir como tudo se conjugou para o desfecho que o caso depois teve.

 

Se gostam de documentários este é um daqueles obrigatórios. No Domingo acabou por ganhar o Oscar nessa mesma categoria, num ano em que três dos cinco candidatos se debruçavam sobre questões raciais.

É triste perceber que por mais que se fale sobre o assunto, se debata e se escreva, esta continua a ser uma questão tão mal resolvida na sociedade americana. Fez-me lembrar um outro documentário que pega em muitas questões que se entrecruzam com este, e pensar que pouco ou nada tem mudado ao longo dos anos.

 

 

 

 

 

     

 

 

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16
Fev17

 

O filme [Stalker] precisa de ser mais lento e tedioso no início para que os espectadores que entraram na sala de cinema errada tenham tempo de a abandonar antes que a acção propriamente dita comece.

 

 

stalkerII.jpg

 daqui

 

 

 

 

A frase é do realizador, Andrei Tarkovsky, em resposta a uma crítica feita ao filme afirmando que o mesmo "deveria ser mais rápido e dinâmico".

 

Em breves traços "Stalker" é a história de um homem que acede levar outros dois, o Professor e o Escritor, até um lugar conhecido como a Zona para encontrarem um quarto que concede os desejos de quem lá entra.

 

A ideia é bastante simples, mas a viagem que os três fazem revela-se muito mais profunda que isso.  

 

 

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 daqui

 

 

 

 

Tanto gosto de ver filmes mais comerciais quanto filmes mais introspectivos, dependendo do meu estado de espírito. Escolho de acordo com a vontade de ver algo para me distrair, para me entreter, ou a vontade de me abrir a experiências novas, que me levem a reflectir um pouco mais sobre a vida, sobre a visão de outras pessoas; descobrir perguntas que até então não me tinham surgido, alimentar-me da sabedoria dos outros. 

 

Este filme requer disposição e abertura para ser visto. São mais as coisas que parecem jogar contra que a favor dele, na altura de nos sentarmos a vê-lo. É falado em russo, dura quase três horas, é possível que só o interiorizemos melhor com várias visualizações, não foi feito com a preocupação de atrair e agradar o público, e não, definitivamente não é um filme "rápido e dinâmico". Apesar de tudo isto, é um filme que nos permite fazer uma viagem paralela àquela que estamos a ver no ecrã e isso é gratificante e supera todos os aparentes contras. 

 

  

Nunca tentes expressar a tua ideia ao público - é uma tarefa ingrata e sem sentido. Mostra-lhes vida e eles encontrarão dentro de si próprios os meios para aceder à mesma e apreciá-la. 

 

 

 

Ao contrário de vários realizadores que sentem a necessidade de explicar os seus filmes, de quase mastigá-los e dar à boca dos espectadores, o Tarkovsky é um daqueles que respeita a inteligência de quem o está a ver.

É-nos dada uma história para explorarmos à nossa vontade e cada um faz a interpretação que entende e permite-se ligar emocionalmente - ou não - a essa mesma história. 

 

 

 

 

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Rita

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