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AND THERE'S NO DRIVER AT THE WHEEL


Lembro-me perfeitamente que chovia torrencialmente na noite anterior. Das maiores chuvadas que tenho memória. Chovia e trovejava mesmo muito. 
De si, já era uma noite agitada o suficiente, todo o turbilhão de sentimentos não me deixava dormir. Aquele dilúvio não facilitava nada. Sei que acordei algumas vezes durante a noite com o barulho dos trovões. 

 
O último ano e meio da minha vida anterior àquela noite foi dedicado ao que estava prestes a acontecer. Esse ano e meio era a expressão de anos e anos a sonhar com uma coisa que sabia que mais tarde ou mais cedo iria acontecer, só não sabia quando. 
 
Não sei exactamente quando surgiu este sonho, só me lembro que já vinha desde miuda. Sei que sempre que me perguntavam qual o sítio que mais queria conhecer, a resposta era sempre a mesma: Nova Iorque. 
Eu estava, sempre estive, perdida e irremediavelmente apaixonada por um sítio que só conhecia dos filmes, das revistas, dos jornais. Era mais que um lugar físico, muito mais e não é possível explicar em palavras a dimensão que tinha e tem para mim.
O sonho de algumas pessoas é casar, o de outras ter filhos, para algumas tem a ver com determinada carreira... O meu sonho mais antigo e mais concreto era ir a Nova Iorque. É tão simples quanto isso.
 
Chovia mesmo, mesmo muito e eu estava na minha cama a obrigar-me a dormir enquanto aqui dentro todos os sentimentos e mais alguns se confundiam com a intensidade do que se estava a passar lá fora. Chovia sem parar. 
 
A primeira fotografia que tirei foi da janela da casa de banho do Hotel, via-se a Estátua da Liberdade. O Hotel é mesmo junto ao rio Hudson e todos os dias, durante duas semanas, esta era a minha vista. Uma pessoa que cresceu a fantasiar com esta cidade, todos os dias podia olhar pela janela e ver lá ao fundo a silhueta desta Estátua... 
 
É estranho estar noutra parte do mundo, numa cultura completamente diferente, num sítio que não se conhece mas que é tão familiar. Acho que é um sentimento comum a quem já lá esteve. Uma pessoa conhece as ruas, as vistas, os lugares, já os viu vezes sem conta. 

Conseguia-se ver o Empire State Building perto da estação de metro mais próxima do Hotel e a primeira vez que o vi pensei que estava enganada, que seria outro edifício parecido (só se via o topo). As coisas são assim em Manhattan: surgem-nos como se nada fosse. Da janela vê-se a Estátua da Liberdade e na rua ao virar da esquina enquanto se está entretido na conversa, vê-se o Empire State Building. 
 
Ainda hoje, ano e meio depois de ter voltado, tenho dificuldade em acreditar que estive realmente lá e que entretanto já voltei e já passou este tempo todo... Sei perfeitamente o cheiro daquela cidade, sei a cor, sei as ruas, sei as pessoas mas foi uma experiência tão arrebatadora em todos os sentidos, que ainda a ando a digerir. Faço-o todos os dias quando ligo o telemóvel e a imagem é da vista do 30 Rock, quando ligo o portátil e a vista é no Roof Garden do Metropolitan Museum, quando ligo o computador do trabalho e a imagem é do Central Park... 
 
Lembro-me tão bem do chinês que trabalhava na lavandaria perto do Hotel e do seu riso tão característico, o funcionário do Hotel que sabia falar um pouco de português e nos cumprimentava às vezes com bom dia ou boa noite, um senhor no metro que meteu conversa connosco porque pensava que estávamos perdidas e contou que tinha estado em Portugal (o ar dele a comentar connosco que achava curioso que os táxis cá são Mercedes...), uma senhora que nos ouviu falar e abordou-nos porque também é portuguesa mas vive lá desde 1983, um senhor de New Jersey com quem falei no Lincoln Center que também já veio a Portugal (esteve em Cascais) e adorava ouvir fado, o Darryl, o Derrick, o Jared, a Nancy, o comandante do cruzeiro, os funcionários das lojas (principalmente em Times Square) sempre animados a cantar, o senhor que ganhou a alcunha de "Hoboken" nos estúdios da NBC...
Pergunto-me às vezes o que será feito deles.
Cada pessoa nesta cidade é tão diferente e única. 
 
As conversas dramáticas dos americanos com um copo de Starbucks na mão e o jornal na outra (coreografado para um qualquer filme mas era mesmo real e recorrente), whole wheat bagels, multi grain bagels, cinnamon raisin bagels (os meus preferidos), bancas de fruta e de batidos em todo o lado, delis em cada esquina, a quantidade e variedade de doces, bebidas, comidas... Pessoas a fazer jogging em toda a parte, a passearem os cães, a andarem de bicicleta.
 
O ritmo daquela cidade, as cores, as luzes, absolutamente tudo. 
Times Square, Battery Park, Grand Central Terminal, Brooklyn, o American Indian Museum, Bryant Park, o Museum of Modern Art, o Madame Tussauds, o cruzeiro Circle Line, o Intrepid Museum, Ellis Island Museum, o Radio City Music Hall, o 30 Rock à tarde, o Empire State Building à noite, os estúdios da NBC, o Lincoln Center, o Museum of the City of New York, o American Museum of Natural History, Coney Island, o Metropolitan Museum, Harlem, atravessar a ponte de Brooklyn a pé, passear no High Line, no Soho, em Greenwich Village, em Little Italy, no Central Park, viver no Meatpacking District naqueles quinze dias...
 
Naquele último dia, enquanto estava sentada no banco de jardim com vista para New Jersey comecei a aperceber-se que involuntariamente ia deixar lá uma parte de mim. Que foi daquelas experiências tão transformadoras, tão intensas, tão inesquecíveis, tão únicas, tão esmagadoras, tão significativas que nunca poderia voltar a ser mesma pessoa. 
 
Foi um sonho realizado mas que me deixou com vontade de mais. 
Se antes dizia que não podia morrer sem lá ir, hoje digo que tenho de voltar. Em algum ponto da minha vida, tenho de lá voltar. 

 
 
 
 

 
it's up to me now, turn on the bright lights.
 
 
 
 
 

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Rita

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