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THE CAR IS ON FIRE

AND THERE'S NO DRIVER AT THE WHEEL

08
Fev17

Raízes

Rita

Nasci na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. Dois meses depois fui adoptada pela minha Mãe, a única que reconheço nesse papel. Sempre soube todos estes factos, desde que me lembro, e lidei normalmente com eles. Quando me fazem perguntas sobre este assunto são sempre: "e porque te deram eles? e não te sentiste revoltada?". Eu não. Tive uma vida que não teria de outra forma e quanto à revolta, como sempre estive a par do que aconteceu e cheguei a conhecê-los, não senti nada disso. Via-os, sabia quem eram, mas eram pessoas distantes, que pouco me diziam. 

 

Sendo filha única e tendo a minha Mãe possibilidades financeiras, a ideia dela foi sempre dar-me o que julgava melhor para mim, e em termos de educação achou que eu estaria melhor em colégios particulares. Andei num desde a pré-primária até ao ciclo e noutro do ciclo até ao fim do secundário. Sem me dar absolutamente tudo o que eu queria, porque isso não é sinónimo de gostar de mim, não me posso queixar de não ter tido aquelas coisas que os miúdos gostam, de não ter conhecido vários lugares no país e fora, de não ter tido uma vida confortável, resumindo. E sempre vivi rodeada de pessoas que viviam da mesma forma. 

 

O que falta referir para poder chegar onde quero, daqui a umas linhas, é que a minha Mãe é portuguesa, natural de Tomar. Os meus pais biológicos são cabo-verdianos; ela natural da ilha de Santiago e ele de S. Vicente. Fui criada como se a cor da minha pele fosse outra, pela vida que tinha, pelas pessoas por quem estava rodeada e também pelo facto da minha Mãe só conhecer essa realidade. Ou seja, eu não sabia o que eram mornas, o que era o crioulo, quem era a Cesária Évora... e não era por a minha Mãe o esconder ou algo do género, ela própria não saberia dar-me isso a conhecer porque também não fazia parte do mundo em que foi criada e em que vivia. 

 

Lembro-me de nos tempos de escola sentir que isso me diferenciava e o que eu queria era ser tal e qual as pessoas que conhecia, queria ser igual a elas. Na minha cabeça de criança eu era branca. Fui criada por Mãe branca, tinha amigos e professores brancos, fui criada nessa cultura. Não tinha qualquer ponto de referência que me ligasse às minhas origens. Ficava mesmo ofendida quando se referiam a mim como mulata ou mestiça e irritavam-me os olhares curiosos por ter esta cor e a minha Mãe ser branquinha como cal. Ou quando ou pretos ou brancos me olhavam de lado por eu não ser nem uma coisa nem outra; simplesmente estar ali, no meio.

 

Com os anos fui entrando na minha pele e hoje em dia é coisa que encaro com toda a naturalidade. Continuo na mesma realidade em que sempre vivi, continuo sem ter contacto com aquela parte de mim que vem desde antes de nascer, com a minha própria origem.

 

Hoje estava a ler um artigo da revista "Única" sobre uma cantora cabo-verdiana, chamada Lura, e dei por mim a pensar nisto tudo. Na vontade cada vez maior que tenho de ir a Cabo Verde, conhecer a terra dos meus "pais", conhecer as pessoas, os lugares, a música... Acho que não me será indiferente porque é uma parte de mim que desconheço quase completamente. Sinto que é uma daquelas coisas que tenho de fazer antes de morrer porque há-de ter algum sentido que na altura vou compreender.

 

 08.10.2006

 

 

 

 

 

 

 

Ontem lembrei-me deste texto que escrevi há mais de dez anos. Pensar na quantidade de coisas que aconteceram entretanto...

Ainda não fui a Cabo Verde e deixou de ser possível fazer essa viagem com a minha Mãe, mas é um lugar que ainda habita o meu imaginário e que quero conhecer. 

 

07
Jul15

11

Rita

As ciprestes que vejo na estação de comboios da Fertagus em Penalva, do lado esquerdo na ida e do lado direito na volta, e os esqueletos de algumas carruagens de comboios da CP, do lado direito na ida e do lado esquerdo na volta como prólogos e epílogos entre Maio e Novembro de 2014.

 

Foros de Amora - Fogueteiro - Coina - Penalva - Pinhal Novo. Ficar meia hora no Pinhal Novo à espera do outro comboio da CP. Quanto livros foram lidos nesses meses, nessa meia hora, nessas viagens de comboio.

 

Pinhal Novo - Penteado - Moita - Alhos Vedros.

 

Unidade de Cuidados Continuados, área dos Cuidados Paliativos. Dar a carta de condução umas vezes, dar o cartão do cidadão noutras e receber em troca o cartão de visita roxo que dizia "Familiar". Roxo para os paliativos, verde e amarelo, se não me engano, para os Cuidados de Média e Longa Duração.

De acordo com a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos:

 

Os cuidados paliativos definem-se como uma resposta activa aos problemas decorrentes da doença prolongada, incurável e progressiva, na tentativa de prevenir o sofrimento que ela gera e de proporcionar a máxima qualidade de vida possível a estes doentes e suas famílias. São cuidados de saúde activos, rigorosos, que combinam ciência e humanismo.

 

Aquele cartão roxo que devia andar comigo de forma vísivel, com o 11 que correspondia ao número do quarto onde esteve a minha mãe durante pouco mais de seis meses, identificava-me como familiar de alguém com uma doença prolongada, incurável e progressiva. Uma pessoa que tinha vindo para o quarto 11 para morrer. Chegada aqui, depois de ano e meio em hospitais, já não havia mais rodriguinhos nem eufemismos. Já não havia a conversar de "lutar", já não havia outra possibilidade que não fosse morrer.

 

Os Cuidados Paliativos eram basicamente um corredor, com quartos dos dois lados, com uma placa do lado de fora desses quartos que tinha o nome da pessoa que lá estava. Nomes que se confundiam uns com os outros, nomes que pareciam fazer um jogo de escondidas de semana para semana. Num fim de semana estava o "José Barbosa" ali e no fim de semana seguinte já não estava. No fim de semana a seguir a esse tinha outro ocupante. Tentei fixar alguns nomes mas tornava-se difícil.

 

Num dia vinha a carrinha funerária e as auxiliares fechavam as persianas do quarto 11. Não sei se era para eu não ver ou para a minha mãe não ver, ou ambas. No estado mental em que a minha mãe estava, ou melhor, já não estava, não sei que diferença faria. Não sei em que momento exacto a lucidez da minha mãe a abandonou e ela passou a viver num mundo só dela mas julgo que aí não havia vida, morte, fosse o que fosse. Não sei se essa lucidez a abandonou antes de conseguir perceber o que estava a fazer naquele corredor, à espera do fim. Não sei se a troca de cadeiras nos outros quartos estava no seu radar. Não sei nada. 

 

A morte em toda a parte, em todo o lado, naquele corredor. E fazia-se anunciar com um cartão roxo. E eu via as outras pessoas passarem por mim, erámos espelhos uns dos outros, com cartões iguais mas com outra numeração. Todos nós na incerteza de nos voltarmos a ver. Tudo dependia da vida ou morte de quem vinhamos visitar.

 

Mesmo assim, mesmo depois de ano e meio dentro e fora de hospitais, dos Cuidados Continuados de Longa Duração primeiro, dos Cuidados Paliativos depois; depois de tudo isso ainda fui apanhada completamente desprevenida quando a morte deixou de parte o suspense e decidiu que tinha chegado a altura. Li mais tarde na certidão de óbito que a minha mãe morreu às 18:40, naquela terça feira, dia 2 de Dezembro, pouco depois de eu chegar a casa e ligar a televisão e o computador, depois de me pôr na conversa no Facebook. A minha mãe morreu e eu não estava lá. A  minha mãe morreu e eu estava a comer bolachas, a rir-me com alguma parvoíce que hoje mal me lembro. O telefone tocou, a enfermeira disse qualquer coisa sobre o estado da minha mãe se ter agravado subitamente e que tinha falecido.

 

A verdade é que desde então que não sei onde me sentar na minha vida. Não sou filha de ninguém agora. A minha mãe desapareceu. 

 

Sete meses e nunca mais voltei ao cemitério. Às vezes sinto-me aquela filha que vai adiando a visita à mãe que vive longe. Mas que visita é esta às cinzas - literalmente - da minha mãe, que foi cremada? 

 

Existem muitos dias em que continuo a ver-me dentro do comboio, a passar em Penalva e a sentir que a morte está mesmo ali, quase visível, cada vez que reparava nas ciprestes e as tentava ignorar. Um dia vais voltar a ver-nos.

 

 

No cemitério vejo as mesmas árvores. Tinham razão

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